Inaugurada em SC a primeira loja do Brasil 100% ecológica e sustentável. Você já deve ter ouvido falar em reutilização e reciclagem de materiais, economia de bens naturais e incentivo a ações sociais nas comunidades. Essas são algumas das premissas básicas que estão norteando empreendedores em todo planeta a trabalhar a responsabilidade social e ambiental. Esse tipo de preocupação existe há alguns anos. No começo do século XIX, a Dupont, que ainda fabricava materiais explosivos, já se preocupava com as comunidades do seu entorno. A Ford empenhava-se para melhorar a situação econômica dos seus funcionários e a preocupação ambiental era uma crescente entre os empresários da época. Anos mais tarde, o desafio é repensar a sustentabilidade de forma ampla e sistêmica. Em 2006, foi lançado o Principles for Responsible Investment – PRI (Princípios para o Investimento Responsável). A iniciativa de âmbito global é fruto de uma parceria da Organização das Nações Unidas (ONU) com investidores. O PRI rege as ações de organizações em todo mundo, definindo diretrizes socioambientais e de governança corporativa. Hoje em dia mais de 800 empresas ao redor do mundo estão de acordo com as determinações do PRI, sendo que 44 estão no Brasil. De Santa Catarina vem um exemplo que está mudando a forma do empresariado encarar a gestão empresarial sustentável. Andreia Rosa de Amorim, consultora em sustentabilidade, atua há oito anos no setor. Com mestrado em Administração na área de Estratégia e Sustentabilidade, ela sempre almejou dividir conhecimentos e implementar ações sustentáveis seja em casa, entre o grupo de amigos, no trabalho. “Essa não é uma tarefa fácil, pois grande parte das pessoas ainda não têm consciência do que é ser ecologicamente comprometido e acabam distorcendo as coisas”. Mostrar como cuidar dos bens naturais e promover ações de responsabilidade social estão entre as missões de Andreia. Em setembro deste ano, a empresária e consultora decidiu montar um negócio próprio baseado nos princípios da ecoeficiência e sustentabilidade e inaugurou em Florianópolis a ECO Moda para Crianças, primeira loja do Brasil 100% ecológica e sustentável, desde a concepção do negócio e processos de gestão, até o design de ambiente e seleção das marcas. A intenção dela é mostrar que é possível ser “eco” urbano e que os negócios podem ser realizados já contribuindo com um padrão de economia e desenvolvimento mais equilibrado e sustentável.
O diferencial
O processo de criação da ECO passou por fases importantes a começar pela seleção das marcas. Andreia mapeou aproximadamente 100 empresas, enviou um questionário e pouco mais de 25% retornaram. Após isso, foram selecionadas 12 marcas que estão sendo comercializadas pela loja, apresentando as possibilidades ecologicamente corretas na coleção primavera-verão 2010-2011. As marcas vendidas pela loja fazem parte da Turma do Bem, nome dado pela empreendedora. Entre os critérios para seleção delas estava a priorização por aquelas que trabalham com produtos ecológicos como algodão orgânico ou poliéster de garrafa PET. Além disso, 100% das marcas garantem não ter mão de obra infantil, 90% utilizam serviços de Organizações não Governamentais ou Cooperativas próximas à empresa e 90% realizam ações sociais nas comunidades. A escolha do público-alvo também foi estratégica, a ECO atende crianças de zero a oito anos. “Decidi trabalhar os conceitos
de preservação ambiental com as crianças e seus pais para instigá-los a pensar e agir de modo ecológico, através do que usam e consomem. A loja é uma alternativa para o plantio de sementes de esperança na construção de um mundo mais equilibrado na relação homem e natureza”, defende. Outra preocupação está com relação ao meio ambiente. Das 12 marcas vendidas pela ECO Moda para Crianças, 100% realizam coleta seletiva de resíduos, 50% dos tingimentos são feitos com produtos naturais, 100% dos produtos têm estamparia impressa a base de água e 100% das colorações e pigmentos respeitam os critérios de não tóxico, não cancerígeno e biodegradável.
A loja
Desde a concepção, todo o espaço foi planejado levando em consideração os preceitos de construção sustentável. Uma parceria com um escritório especializado no assunto e com uma empresa de engenharia – na etapa do projeto – e com empresas de móveis de demolição – na fase de execução – fez com que a ECO nascesse ecologicamente correta. Para isso, foram tomadas como base referências de construção sustentável e bioconstrução, orientações do Processo AQUA, da Fundação Vansolini, e o LEED CI (Leadership in Energy and Environmental Design), do Green Building Council. Esses cuidados fazem com que a loja tenha reaproveitamento passivo dos recursos naturais, eficiência energética, gestão e economia de água, gestão dos resíduos na edificação, controle de qualidade do ar e ambiente interior, conforto termo-acústico e uso de produtos e tecnologias ambientalmente amigáveis. Os benefícios disso tudo? Um empreendimento que não agride o meio ambiente e que torna-se mais econômico à medida que faz uma gestão consciente dos recursos naturais bastante utilizados como água e energia. Dessa forma, Andreia consegue administrar os gastos para investir o dinheiro economizado em outras necessidades da empresa.
A gestão
O modelo de gestão adotado pela ECO seguiu os princípios de sustentabilidade, que consideram o impacto do funcionamento da loja na vida das pessoas, no ambiente e na economia. O diferencial está nas escolhas feitas. Segundo Andreia, gerir um negócio sustentável pode dar um pouco mais de trabalho, pois é preciso pensar “fora do padrão” da maioria dos gestores, além de exigir uma visão a longo prazo. Para os que desejam iniciar nesse caminho, a empresária e consultora em
sustentabilidade adianta que o alicerce deve estar pautado nos impactos econômicos, sociais e ambientais. É importante, também, fazer um mapeamento dos impactos do negócio sobre essas três dimensões, identificando pontos positivos e negativos do empreendimento para, a partir daí, desenvolver uma ação. E essas ações podem ser das mais simples, como a coleta seletiva de resíduos, até as mais complexas, que envolvem o sistema de gerenciamento do negócio. Na ECO, um bom exemplo a ser destacado é a escolha do material utilizado para embrulhar presentes, que levou em consideração fatores ambientais e econômicos. “Utilizamos papel de seda para embrulhar os presentes invés de sacos laminados ou plásticos. E as nossas sacolas são feitas de papel, a partir da reciclagem de caixas de leite longa vida”, explica a empresária. Para que o negócio sustentável e ecologicamente correto dê certo é fundamental que esses valores estejam incutidos no empreendedor e sua equipe. Como benefício destaca-se a visibilidade em divulgação expontânea pelo caráter inovador do negócio, funcionários engajados e motivados para fazer o empreendimento prosperar, redução dos riscos de multas por transgressões legais e, consequentemente, melhores resultados financeiros para a empresa. “Acima de tudo, existe um benefício que não pode ser mensurado, que é saber que se está fazendo a diferença para construir um futuro melhor. Eu escolhi trabalhar com as crianças para ajudá-las a fazer escolhas conscientes amanhã”, encerra Andreia.