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Na contramão da “consumoterapia”,
o bem-estar está cada vez
mais associado a atividades de lazer

O canadense Jean-Carl Honoré sempre teve uma vida tipicamente hipermoderna: do trabalho para casa, da casa para o trabalho, com breves pausas para caminhadas, out ras at i v idades f í s i cas e tarefas domésticas compartilhadas, como, por exemplo, as compras no supermercado.
Na balança do cot idiano at r ibulado, buscava incessantemente equilibrar o tempo dedicado às atividades profissionais – é jornalista e escritor – e a atenção à família e aos dois filhos, de 7 e 4 anos.
Sendo um pai amoroso e carinhoso, reservava um tempo à noite para ler histórias para as crianças. O que era para ser divertido e relaxante acabava se somando a um volume considerável de outras prioridades e, como tal, era realizado com pressa e sem paciência. Até que um dia, o jornalista-pai-escritor se flagrou
pensando em comprar uma coleção que permitiria, em tese,
contar histórias em apenas um minuto. “Estava tentando fazer mais e mais coisas em menos tempo: era quantidade antes de qualidade em tudo, todos os momentos do dia eram uma corrida contra o relógio", desabafa.

Pois foram justamente os filhos que o fizeram perceber que velocidade não é tudo na vida, que a correria do dia a dia já havia passado dos limites e, o pior, ele próprio nem havia se dado conta! A solução foi eliminar da agenda tudo o que pudesse estar sobrando.
Aceitar que não poderia mudar o fato de o dia ter apenas 24 horas e que seria impossível fazer tudo nesse espaço de tempo foi o primeiro passo para mudanças aparentemente simples que, aos poucos, foram incorporadas ao dia a dia, como estabelecer pausas durante o trabalho, praticar meditação todos os dias e reservar um tempo para o lazer com a família.

As atividades extracurriculares das crianças também foram reduzidas, assim como as horas em frente à TV e ao computador. Ao pisar no freio, pôde dedicar mais tempo aos momentos prazerosos com os filhos e a família, o que, para ele, era o mais importante.
eunida no livro “Devagar: como um movimento mundial está desafiando a cultura da velocidade”, lançado no Brasil pela editora Record, a experiência de Honoré deu origem ao slow movement (movimento lento, em uma tradução literal).
Ao pregarem a busca do bem-estar e de mais qualidade de vida em uma atitude “sem pressa” diante da rotina, filosofias como o slow movement vêm conquistando adeptos em todo o mundo. Mas como, na prática, associar produtividade, qualidade e felicidade?

Google História
A prática do lazer é mais do que a compensação para as obrigações do trabalho, na opinião do professor Antônio Carlos Bramante, mestre em Educação e doutor em Filosofia. O que se busca em atividades de lazer e de recreação, afirma, é transcender as diversas dimensões da vida e da existência, de forma equilibrada.
É nesse sentido que entidades como o Serviço Social do Comércio (SESC) cumprem a importante missão de socializar e diversificar a oferta de atividades de lazer, buscando sempre uma visão socioeducativa e ampliando o repertório de experiências lúdicas de cada indivíduo.
Globalmente reconhecida como uma das empresas que mais incrementam o faturamento com desenvolvimento e oferta de serviços inovadores, a Google é considerada o paraíso quando se trata de ambiente ideal para se trabalhar. Para manter uma equipe supercriativa e produtiva em escritórios nos quatro cantos do mundo, a gigante da tecnologia outorga aos funcionários total autonomia para administrar tempo e trabalho.
No blog Buzz Machine.com, um dos mais populares e respeitados da web sobre internet e mídia, o proprietário e colunista Jeff Jarvis revela a razão de tanto sucesso no mercado: comodidades ao alcance das mãos, como lavanderia, spa com piscina, restaurantes, médicos e acesso a amplas áreas de descanso e lazer, em horário de trabalho.Tudo isso, assegura, tem o objetivo de aumentar a
sensação de bem-estar dos funcionários, favorecendo a criatividade e a sociabilidade.

Lazer x crise

Imaginar que é possível passar a vida fazendo só o que gosta e ainda ganhar dinheiro com isso pode parecer um sonho praticamente inatingível e para poucos, mas, por incrível que pareça, é viável, na opinião do sociólogo italiano Domenico De Masi.
Criador da expressão “ócio criativo”, De Masi acredita que a criatividade é um recurso essencial para a economia mundial, independentemente de estar ou não em uma época de crise, e que trabalho, lazer e estudo, ao se misturarem, contribuem para ativar a criatividade de profissionais, tornando-os mais motivados e produtivos no ambiente corporativo.

O sociólogo expl ica que o homem ocidental contemporâneo continua a ser preparado, da infância à idade adulta, pela família e também pela escola, para o trabalho. No entanto, quando se depara com uma pausa no ritmo profissional frenético, tem a sensação de estar meio órfão e simplesmente não saber o que fazer. “Estamos despreparados para o tempo livre e não sabemos o que fazer com ele”, respondeu em entrevista à TV Cultura, em 1998.

A filosofia do Slow

É inútil forçar os ritmos da vida.
A arte de viver consiste em aprender a dar o devido tempo às coisas. Carlo Petrini, fundador do Slow Food

Lazer e trabalho
Ao trocar o frenesi da cidade onde nasceu, foi criado e iniciou a carreira como produtor de vídeo e repórter fotográfico, pelo sossego de uma das praias de Florianópolis, o paulistano Marcelo Busch, 47 anos, buscava mais tempo livre para prazeres simples como um passeio de bicicleta à beira-mar e mais tempo com os filhos.
“Na cidade grande, a vida era tão corrida que não me dava conta de que coisas muito simples podiam ser prazerosas”,
conta.
Assíduo frequentador das atividades e programações de lazer e recreação oferecidas no SESC, em especial dos espaços de leitura e da biblioteca, ele não abre mão do tempo dedicado ao lazer, equilibrando a rotina intensa da profissão com os demais aspectos da vida. A prática do lazer é mais do que a compensação para as obrigações do trabalho, na opinião do professor Antônio Carlos Bramante, mestre em Educação e doutor em Filosofia. O que se busca em atividades de lazer e de recreação, afirma, é transcender as diversas dimensões da vida e da existência, de forma equilibrada.
É nesse sentido que entidades como o Serviço Social do Comércio (SESC) cumprem a importante missão de socializar e diversificar a oferta de atividades de lazer, buscando sempre uma visão socioeducativa e ampliando o repertório de experiências lúdicas de cada indivíduo.

História

Para os gregos, o ócio era a base da liberdade e da fel icidade. Nessa época, o cot idiano acontecia fundamentalmente nos ginásios esportivos, nas termas, no fórum ou em outros lugares de reunião. Aristóteles afirmava que o ócio era uma condição ou estado – o estado de estar livre da necessidade de trabalhar, então associada à escravidão. Por isso, dava-se mais valor ao ócio do que ao trabalho, e os homens se dividiam em duas classes: os dedicados à arte, à contemplação ou à guerra; e aqueles que eram obrigados a trabalhar, inclusive em condições precárias: os escravos.
A vida ociosa contrapunha-se à vida de ação, entendendo-se por ação as atividades dirigidas para obtenção de fins materiais. Os gregos não consideravam o ócio como diversão ou recreio porque essas eram atividades diretamente relacionadas ao descanso do trabalho.
Já para o romanos da Idade Média, o ócio não era um fim a ser buscado, mas significava o descanso nos intervalos das atividades principais – exército, comércio e governo.
Raulito Guerra Filho, mestre em Lazer da Unicamp, para a revista Partes

Ócio, do latim otiu: descanso, repouso, preguiça Lazer, do latim licere: vagar, ócio Descanso: sossego, folga, pausa, apoio, demora











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