Artigo: O recado das urnas e o tamanho da mudança
Por Hélio Dagnoni, presidente do Sistema Fecomércio-Sesc-Senac de Santa Catarina
O domingo, 4 de outubro, deixou um recado claro: o eleitor brasileiro quer mudança. Mas seria um erro ler esse recado de uma única forma. A mudança pedida nas urnas tem intensidade e significado diferentes conforme o lugar de onde se olha – o Brasil, a Região Sul e Santa Catarina. Compreendê-la corretamente é tarefa de quem governa, de quem legisla e também de quem produz.
No plano nacional, uma onda à direita atravessou os estados. Vinte unidades da Federação definiram seus governadores já no primeiro turno, o maior número desde 1990. O desenho é eloquente. Dos 20 governos já definidos, dez ficaram com partidos de direita e centro-direita (PL, Republicanos e PP), sete com legendas de centro (PSD, MDB, PSDB e Podemos) e três com a esquerda – o PT, que manteve Bahia, Ceará e Piauí, todos no Nordeste. Na maior parte dos casos, os eleitos chegaram lá apoiados por alianças que reuniram a direita e o centro, com presença frequente de Novo, PP, União Brasil, Republicanos e Podemos. Outros sete estados decidem em 25 de outubro.
No Senado, o movimento foi ainda mais nítido. O PL elegeu 19 senadores e chegará a 2027 com 28 cadeiras, a maior bancada da Casa. O Novo saltou de um para três senadores. Na outra ponta, o PSD sofreu a maior redução, de 13 para cinco, e o MDB caiu de dez para oito. O PT manteve seus nove representantes.
Na Câmara dos Deputados, o PL elegeu 121 parlamentares, 22 a mais do que em 2022, e ocupará quase um quarto das 513 cadeiras. A federação PT-PCdoB-PV será a segunda força, com 88 deputados, seguida da União Progressista (União Brasil e PP), com 87. Nas assembleias legislativas, o PL saltou de 126 para 212 deputados estaduais e distritais, e o PT, segundo colocado, passou de 117 para 141. Ou seja: a direita avançou com força, mas o país não é homogêneo – e a maioria absoluta no Congresso continuará exigindo diálogo com o centro.
Na Região Sul, a mensagem foi ainda mais uniforme. Os três estados resolveram a eleição para governador no primeiro turno, e os três escolheram nomes do PL, sustentados por alianças de direita e centro-direita. São projetos com pautas semelhantes: eficiência da máquina pública, segurança, ambiente favorável a quem produz e menor peso do Estado sobre a economia. O mesmo padrão se repetiu nas seis vagas ao Senado, elegendo quatro do PL e dois do Novo, todos com perfil liberal na economia e conservador nos costumes. O Sul falou praticamente a uma só voz.
É em Santa Catarina, porém, que o sentimento precisa ser mais bem compreendido. A onda de mudança que varreu o país e a região encontrou aqui um governador que, no olhar do eleitor, já vinha promovendo essa mudança nos últimos anos. Por isso, o eleitor catarinense não trocou o comando do Executivo: confirmou-o. Jorginho Mello recebeu mais de 2,9 milhões de votos, à frente de uma coligação de nove partidos (PL, Novo, Republicanos, Podemos, PSDB, Cidadania, Avante, Agir e DC), tendo como vice o empresário Adriano Silva (Novo).
Mais do que reeleito, o governador saiu das urnas fortalecido. O PL passou de 11 para 16 das 40 cadeiras da Alesc – 40% da Casa –, formou a maior bancada catarinense na Câmara dos Deputados, com sete dos 16 deputados federais, e elegeu os dois senadores. Somados a Jorge Seif, eleito em 2022, o partido ocupará as três cadeiras do estado no Senado a partir de 2027.
A mudança em Santa Catarina, portanto, apareceu na disputa pelas cadeiras legislativas. E esse recado precisa ser bem lido. O eleitor deu ao governo estadual uma base mais ampla e alinhada, ampliando a expectativa de entrega junto à Alesc e de uma bancada federal capaz de levar a Brasília as demandas de quem produz em Santa Catarina.
E quais são essas demandas? A Carta do Comércio 2026, elaborada pela Fecomércio SC a partir da consulta a 483 empresários do comércio de bens, serviços e turismo, é clara. O principal gargalo é a carga tributária, que recebeu nota 9,1 numa escala em que 10 representa a maior dificuldade – superando a inflação e o poder de compra, que lideravam a lista em 2022. Logo atrás estão o custo do crédito, a taxa de juros e o cumprimento de obrigações acessórias, peso que tende a crescer enquanto as empresas convivem com dois sistemas tributários durante a transição da reforma.
São questões eminentemente nacionais. Carga tributária, juros e burocracia fiscal não se resolvem no Palácio d’Agronômica nem na Assembleia: dependem da política econômica do país, do equilíbrio das contas públicas e das decisões do Congresso. O cenário, portanto, é de necessária mudança na condução da economia brasileira.
E o resultado de domingo já deu seus primeiros sinais. Na segunda-feira, o Ibovespa subiu 7,7%, ultrapassou pela primeira vez os 200 mil pontos e teve a maior alta em mais de seis anos, enquanto o dólar recuou 4,1% e voltou à casa dos R$ 5. O mercado reagiu às eleições, na exata medida em que a população brasileira reagiu nas urnas.
Os primeiros sinais da onda de mudança determinada pelo eleitor não ficaram restritos ao mercado. Logo após a apuração, ministros do Supremo Tribunal Federal passaram a sinalizar disposição de diálogo com o novo Congresso, diante da recomposição de forças no Senado – a Casa que julga os integrantes da Corte. O movimento reafirma, a uma só voz, uma verdade elementar da democracia: o dono do Brasil não veste toga, nem ocupa palácio. Quem manda no Brasil é o povo brasileiro, que reafirmou na urna um conceito de país.
É fundamental que os poderes constituídos – Executivo, Legislativo e Judiciário, nas esferas federal e estadual – compreendam esse recado. O eleitor não pediu apenas novos nomes; pediu um país que trate com seriedade quem gera emprego e renda, que reduza o peso dos tributos, que torne o crédito acessível e que simplifique a vida de quem empreende. Ainda há um segundo turno presidencial pela frente, mas a direção apontada pelo voto já está dada.
O setor de comércio de bens, serviços e turismo, que responde pela maior parte dos empregos em Santa Catarina, está pronto para dialogar com os eleitos e contribuir com propostas concretas. Que, a partir de agora, possamos deixar de lado a disputa e pensar juntos o presente e o futuro do Brasil.


